O cenário de investimento para startups no Brasil nunca esteve tão em alta. O último Inside Venture Capital Report, produzido pelo Distrito Dataminer, indica que o ecossistema brasileiro gerou US$ 5,6 bilhões em investimento apenas neste ano. Foram mais de 400 aportes até julho. Para se ter uma ideia, o volume de investimentos captados superou os índices registrados em todo o ano passado, quando o total foi de US$ 3,5 bilhões. 

Já quando se fala em Corporate Venture Capital, há uma tendência de competitividade encabeçada por empresas mais dispostas a correr riscos e a aprender com esse ecossistema. Dados do próprio Distrito Dataminer também indicam que o volume dos aportes, deste tipo de fundo, passaram da casa dos milhões de dólares até 2018 para dezenas de milhões a partir de 2019.

Mas aqui, do lado da startup, quem se vê frente a esta realidade pergunta qual o momento ideal para captar uma ou mais rodadas de investimentos? Como fundos e corporates definem valuation (processo de estimar o valor real da startup)? A que se deve estar atento no contrato de investimento e como isso impacta no momento da saída?

Para discutir essas e outras dúvidas, reunimos os empreendedores e empreendedoras da Comunidade iDEXO para um encontro com o venture capitalist, Rodrigo Baer, que tem mais de 10 anos em Venture Capital, o famoso VC, e o CEO da Valetec, Peter Seiffert, especialista em oportunidades para Corporate Venture Capital, ou CVC.

Os profissionais trouxeram suas experiências e perspectivas sobre o tema e nós reunimos aqui as principais dicas. Então, se você entende que buscar rodadas de investimentos é o caminho para acelerar o crescimento da sua startup, é importante começar esclarecendo logo de cara quais as especificidades do Venture Capital e do Corporate Venture Capital

  • Tenha clareza sobre a diferença e o foco do VC e do CVC

O primeiro aspecto que precisa estar claro no momento de captar investimentos é qual o objetivo de negócio que você pretende atingir com a captação, afinal, para cada estágio da startup há um foco a ser conquistado, ou o também chamado milestone

Em segundo lugar, tenha conhecimento amplo do seu mercado, com as devidas perspectivas sobre demandas e tendências. Depois, avalie sua real capacidade de escalar. E, por fim, chegamos ao foco deste texto: defina como será feita esta captação de recursos.

Tendo esses aspectos muito bem estruturados, agora, é a hora de entender o meio em que esse dinheiro pode chegar. 

O Venture Capital é um fundo de investimento de risco. Esta modalidade é  utilizada para apoiar negócios por meio da compra de uma participação acionária, no caso aqui, de uma startup. O objetivo é que essa empresa cresça de forma rápida e sólida. Assim, essas ações são valorizadas e garantem o retorno esperado pelo investidor na posterior saída da operação.

Enquanto que no Corporate Venture Capital o princípio é semelhante, mas o recurso vem de fundos corporativos. Além disso, esta ação também é realizada com a finalidade das empresas complementarem seu leque de produtos ou serviços, ou mesmo para garantir um processo de inovação mais ágil, por exemplo.

Uma das principais diferenças entre os dois meios de captação é o tipo de retorno esperado. Enquanto que o VC visa, basicamente, o alto retorno financeiro, o CVC leva em consideração também o objetivo da corporação com essa ação.  

De acordo com o venture capitalist, Rodrigo Baer, no momento da análise, os investidores olham para o tamanho do mercado em que o negócio está inserido, concorrência, métricas – para entender se essa startup vai responder de forma satisfatória ao recurso injetado – e, é claro, a estratégia de crescimento da startup.

Já no caso do CVC, a decisão sobre o investimento vai depender muito da estratégia da corporaçãoAgora que estamos na mesma página sobre qual o foco desses investidores, vamos voltar para a perspectiva do founder ao olhar para a questão de como captar investimentos para sua startup. Em que momento ele deve buscar esse recurso e em qual tipo de fundo?

  • Trace uma jornada de crescimento sólido para sua startup

Às vezes você vê oportunidades para o seu negócio, mas o desejo de crescer rápido pode resultar em uma miragem ao invés de uma realidade sólida e consistente. Por isso, tanto Baer, quanto Seiffert ressaltam que o objetivo de cada etapa na trajetória da startup é o que deve definir a escolha sobre o tipo de fundo para captar investimentos e qual o valor do aporte. 

Ou seja, um exercício que deve ser feito é pensar no quanto de dinheiro você conseguirá levantar, qual a meta e, para atingi-la, qual a destinação que dará a este recurso.

“Você tem maturidade para consumir o dinheiro que está buscando captar? Se gastar mal vai desperdiçar, ou seja, vai ser aplicado com pouca eficiência. Então, é preciso ficar atento para não levantar mais do que você precisa, porque sua eficiência de capital despenca e, por consequência, leva junto a chance do seu próximo round de investimento”, explicou o venture capitalist, Rodrigo Baer. 

É preciso reforçar que, no momento da avaliação do investidor, também são levados em consideração pontos como tamanho e perfil do time, histórico do empreendedor, cap table (tabela de capitalização com dados como diluição de capital e valor do patrimônio em cada rodada de investimentos), indicadores de crescimento e nível de governança.

Além, obviamente, de fatores mais externos como o tamanho e crescimento do mercado, como já citamos anteriormente.

A partir da definição da trajetória a ser seguida, uma dúvida trazida pelos próprios founders das startups da Comunidade iDEXO está relacionada às cláusulas que vêm junto com o aporte de capital e que muitas vezes são ignoradas pelos empreendedores.

  • Fique atento às condições do contrato de investimento

Os empreendedores e empreendedoras, em geral, ficam muito centrados no ponto de valuation (avaliação do valor da empresa). Contudo, o que os especialistas afirmam é que a atenção deve ir muito além disso. Peter Seiffert complementa que preservar a jornada de criação de valor da startup é um outro aspecto que deve ter peso no momento da decisão sobre a captação de investimento.

“Dependendo da cláusula que você aceita pode reduzir ofertas futuras e ter limitações, o jogo de VC é um jogo de retorno financeiro na veia. Hoje, as corporações, por conta da competitividade de mercado, atuam com contratos muito semelhantes com os da Venture Capital. Mas claro que poderá haver uma a cláusula de preferência em favor da corporação para novos aportes, como uma medida de compensação pelo esforço feito pela corporação em alavancar a investida. Se for bom para ambas as partes, esta cláusula pode ser estabelecida nas negociações iniciais”, explica Seiffert. 

Sobre o direito de preferência, o venture capitalist Rodrigo Baer se atenta ao aspecto de que o founder pondere o quanto essa questão pode impactar no momento em que a startup for vendida. 

“Pense também no valor que o investidor pode trazer para o crescimento da startup, para além do dinheiro. Aspectos como a colaboração na escolha de time ou de apresentar novos investidores, por exemplo”, completou Rodrigo Baer.

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